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De Taguatinga para o mundo

Da infância humilde na terceira cidade mais populosa do DF até um feito inédito como treinador na Lituânia, Luciano Mistura viveu os momentos mais marcantes da sua vida graças ao futsal. “Esse esporte me deu tudo”, afirma

Augusto Fernandes
Especial para o Viver Sports

Ele ainda era um menino franzino quando começou a dar os primeiros chutes na bola. Nas ruas de Taguatinga, onde morava com a família, Mistura sempre aparecia para jogar com os amigos. O que no início era apenas uma brincadeira de criança foi virando algo sério. Em pouco tempo, ele trocou o asfalto pelas quadras. Defendeu algumas das principais equipes de futsal do DF e jogou até em outros estados do país. Quando percebeu que sua missão enquanto jogador estava concluída, virou treinador. Hoje, está na Liga dos Campeões da Europa. Com 42 anos de idade, boa parte deles marcada pelo esporte, Mistura quer chegar ainda mais longe.

Este é Luciano Luiz Gonçalves de Araújo. Um apaixonado pela modalidade esportiva, ele define o futsal como o seu refúgio. “Ele salvou a minha vida. Quando perdi a minha mãe, tinha 16 anos. Poderia ter me entregado às drogas, mas graças ao futsal, isso não aconteceu. Ele me deu tudo. Me deu estudo e também a possibilidade de conhecer outros países. É uma paixão”, disse.

O apelido Mistura surgiu quando ele tinha 10 anos. “Sempre quando eu jogava golzinho, um senhor que morava na rua me pedia para eu comprar um cigarro para ele, que se chamava Mistura Fina. E eu era magro que nem um cigarro. Uma coisa ligou a outra, e pronto. Mas eu gostava, até porque Luciano era um nome muito comum na época”, lembrou Mistura.

Luciano formou-se em educação física pela Universidade Católica de Brasília. Durante a graduação, conciliava os estudos com as competições. Com o dinheiro que conseguia jogando futsal, pagava as mensalidades do curso. Depois de formado, trocou o Centro-Oeste pelo Sul para aperfeiçoar os conhecimentos no esporte: fez pós-graduação em futsal na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

“Sou até suspeito para falar sobre esse esporte. Assisto a 30 jogos por semana, do mundo inteiro. Minha vida é isso. Com toda experiência que tive com o jogador e a vivência didática e pedagógica da faculdade, quero tentar fazer o futsal crescer aqui em Brasília”, comentou.

Enquanto atleta, defendeu a Asbac, Perdigão (RS), Bento (RS), Internacional (RS), Goiás (GO), ABC (RN), além dos candangos Cresspom e Peixe. No Cresspom viveu uma das melhores experiências. “Chegamos à final da Superliga de 2009, contra o Jaraguá (SC), que contava com o Falcão. Perdemos por 5×2, mas foi um feito e tanto. Na final, marquei um dos gols”, contou Mistura.

Treinador

Em 2011, Luciano passou por um dos momentos mais tristes da carreira. Jogando pelo Peixe, quebrou a tíbia e a fíbula da perna direita em uma partida contra o Corinthians. Recuperou-se e voltou às quadras, mas pouco tempo depois, decidiu se aposentar. “Foram 15 anos. Em determinado momento, percebi que minha contribuição como treinador poderia ser maior do que como jogador. Já estava satisfeito com aquilo que havia conquistado dentro de quadra”, justificou.

Desde então, Mistura esteve à frente de algumas equipes de Brasília. Treinou a Upis, onde conseguiu ser campeão brasileiro universitário; foi comandante da categoria sub-20 do Peixe, onde conquistou a 1ª divisão da Taça Brasil; passou pelo Sesi e atualmente é o treinador do Brasília Futsal/Icesp/AABB. Em julho, levou a equipe ao segundo lugar na categoria adulto da 1ª divisão da Taça Brasil.

No entanto, há alguns meses Luciano teve de dar um tempo das competições locais e nacionais. Convidado pelo clube lituano FK Vytis, arrumou as malas e partiu à Europa para treinar o time na Liga dos Campeões de Futsal. Em três meses de competição, não perdeu uma partida — foram seis vitórias em seis jogos. Graças aos resultados, a equipe conseguiu o feito inédito de chegar à terceira fase do torneio, chamada de Elite Round, que será disputada em novembro.

“Foi algo muito legal. Pela primeira vez, o time está entre os 16 melhores do campeonato. Sabemos que será difícil a classificação para o Final Four, mas só de ter chegado a esse patamar, é uma alegria enorme. Fui para fazer uma boa competição. A classificação seria consequência. Credito isso à qualidade do time. Os atletas entenderam a minha filosofia de jogo e executaram bem o que planejamos. Foi uma harmonia incrível”, celebrou Mistura.

Seu contrato com o FK Vytis dura até o término da Liga dos Campeões. “Quando acabar, quero conversar com os proprietários da equipe para saber o projeto deles. Caso seja bom para as duas partes, talvez eu continue”, afirmou. Mesmo assim, Luciano ainda quer voltar para o Brasil. A saudade da família é o principal motivo.

“No início, tudo foi muito difícil. Eu tinha uma rotina de levar meus dois filhos à escola e acompanhá-los nas atividades esportivas. Mas eles entenderam. Felizmente, minha esposa segurou a onda. Estamos juntos desde os tempos de faculdade, e ela sabia que este era o meu sonho. Hoje, eles acompanham tudo pela internet e vibram bastante pelas minhas conquistas”, destacou Luciano.

Futsal em Brasília

O que também pesa no seu desejo de regressar ao país é a vontade de ajudar no desenvolvimento do futsal na capital federal. “Infelizmente, as pessoas que gerem o futsal aqui não são profissionais. Além disso, falta mais atenção à base. Não existe uma sequência para os jogadores, e com isso, perdemos várias gerações. Temos que trabalhar da maneira correta. Todos precisam de um melhor preparo”, observou.

Feliz com tudo o que já viveu no esporte, Mistura disse que está longe de terminar. “Me considero novo. Ainda tenho muita coisa a realizar. Avaliando toda a minha carreira, ela foi vitoriosa. Mas estou certo de que ela pode render mais”, garantiu. “Onde eu joguei ou treinei, de alguma forma, consegui ganhar títulos. Mas o principal é que eu deixei amigos em todos os lugares que passei. Deixei uma semente plantada de companheirismo e parceria”, frisou.

 

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