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Eles saíram das quadras do DF para brilhar na Europa

Carlos Eduardo Soares e Leandrinho Batista deixaram o Brasil no fim do ano passado e estão fazendo história no futsal da Lituânia. Ambos atuam no FK Vytis

Kátia Sleide

Não importa a modalidade, o Distrito Federal é um celeiro de craques. São inúmeros os nomes que se destacaram e se destacam no cenário esportivo do nosso “quadradinho”. Como é o caso de Carlos Eduardo Soares e Leandro Rocha Batista, conhecidos entre os salonistas por Churrasco e Leandrinho. A dupla atuou em equipes de futsal do DF, como AABB/Upis, Cresspom, AJJR e outras, e, no ano passado, embarcou para a Lituânia, para defender o FK Vytis Futsal.

A história de vida dos atletas mostra que chegar à Lituânia para disputar uma das principais competições daquele país não foi fácil. Eles tiveram de superar dificuldades até desembarcar na  Europa.

O jornal Viver Sports conta um pouco da história desses guerreiros de Brasília que encontraram no futsal um caminho promissor.

Carlos Eduardo Soares de Carvalho: Perseverança, responsabilidade e fé

Nascido em 1º de maio de 1996, Carlos Eduardo Soares de Carvalho, ou simplesmente Churrasco, começou a jogar futsal aos 15 anos, na AJJR Futsal. “A equipe da AJJR foi muito importante pra mim, pois foi onde comecei a gostar realmente de jogar o futsal e aprendi muitas coisas boas. Eu era bem jovem, fui bem acolhido e muito ajudado também”, comenta Carlos Eduardo.

Da AJJR, o atleta, que hoje atua como fixo e ala, partiu para outros desafios, passando pelo Sest Senat e Cresspom, antes de seguir para o FK Vytis, equipe da Lituânia a qual é sua casa atualmente.

Carlos Eduardo destaca também algumas pessoas e clubes que foram essenciais no seu crescimento na modalidade. “Luís Thiago Torres Magalhães, um grande amigo que me trouxe para o futsal. Sempre me falava que eu iria chegar a um lugar que nem eu imaginava. Ele sempre falou que tenho potencial enorme. Além disso, sempre me deu muita força, pegava no meu pé e eu entendia que era para o meu próprio bem. Até hoje ele me apóia e sou muito grato por isso”, destaca.

Em se tratando de receber apoio, Churrasco fala de sua passagem pelo Cresspom, também com muita gratidão ao clube e aos colegas que atuaram com ele. “Aprendi muito no Cresspom jogando com grandes jogadores, como Carlos Henrique Munim, o Nilson da Silva, Daniel Andrade, Carlos Casio (Casin), Carlos Batista (Carlinhos) e o técnico do Cresspom, Luiz Almeida, entre outros. Desenvolvi mais ainda o meu futsal com o apoio dos atletas que me acolheram muito bem e me deram muita força”.

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OBSTÁCULOS

De família humilde e morando em bairro de alto risco de vulnerabilidade social, Carlos Eduardo conseguiu driblar os desafios para seguir no caminho correto. Mas em se tratando de desafios a serem vencidos, o atleta se emociona quando lembra da separação dos pais. “Eu e meus irmãos éramos muito novos ainda. Muito ruim quando isso acontece”.

As dificuldades o obrigaram a trabalhar bem novo para ajudar a família. O que por muitas vezes o impediu de jogar sua bola. “Muitas vezes, não podia jogar bola, pois meu pai não deixava, porque eu tinha de ir trabalhar com ele para ajudar. Isso me deixava muito chateado, mas hoje vejo que serviu de lição e força pra mim”, comenta o atleta.

Um certo dia, jogando na quadra da Vila Dimas, o amigo Luís Thiago o viu jogando e fez o convite para ele ir para a AJJR. “Aceitei o convite, mas mesmo assim, alguns amigos e o próprio Alex Borges, presidente da equipe, tinha de ir conversar com meu pai para ele me deixar treinar e jogar”, lembra Carlos Eduardo.

O atleta foi evoluindo e conseguiu alinhar o trabalho e os treinos e também ganhar a confiança e o apoio do pai. “Com meus 17 anos, meu pai começou a me apoiar também para continuar jogando. Ele me incentivou a permanecer no esporte, pois tinha receio que eu entrasse nas drogas. Graças a Deus, não fui para esse caminho”.

Ele conta que a família passou por muitas dificuldades em casa. Nesse período, chegou a parar de jogar bola e se concentrar apenas no trabalho, pois a situação estava realmente muito difícil. “Fiquei um tempo parado e pensei em nunca mais jogar bola. Mas trabalhei muito e a situação amenizou um pouco e voltei a jogar. Daí em diante, fui fazendo grandes amizades no esporte, as portas foram se abrindo e decidi que então era isso que eu tinha que fazer e comecei a me dedicar cada dia mais ao futsal”, conta o atleta.

Dedicação e esforço

Vindo de uma grande fase de aprendizado, desempenho e muito esforço e treinando forte, Carlos Eduardo deu o seu melhor nas competições de 2018 (Universitário e Campeonato Brasiliense, pela equipe do Cresspom) e teve seus esforços recompensados, com a indicação para o clube FK Vytis, onde o treinador Luciano Araújo, o Mistura, estava trabalhando.

Hoje, o atleta conta que tinha em mente, quando começou sua carreira no esporte, “ser um grande jogador” e hoje se sente realizado, mas acredita que pode melhorar. “Sempre busquei jogar com amor e muita vontade para chegar onde realmente quero. Eu me sinto muito feliz por ter chegado até aqui na Lituânia. Acredito  que posso ir muito mais além, só depende de mim”.

“Nunca passou pela minha cabeça que um dia eu estaria aqui na Europa, mas aconteceu e sou muito grato por tudo. O céu é o limite e acredito muito em mim. Todos esses anos no futsal só me ensinaram que devo confiar e seguir firme”, afirma Carlos Eduardo.

E para aqueles que querem seguir no caminho do esporte, o atleta manda uma mensagem: “Acreditem sempre no seu potencial. Nada é impossível, basta acreditar e correr atrás do objetivo, com humildade e sem diminuir ninguém”, completa.

Humildade

Os técnicos que conviveram com Carlos Eduardo Soares de Carvalho endossam seu potencial em quadra e enaltecem o diferencial como pessoa.

Alex Borges, da AJJR Futsal, o primeiro da dar oportunidade ao atleta, fala com emoção sobre ele. “O Carlos Eduardo é um atleta de alta qualidade técnica, que tem facilidade de se adaptar à parte tática das equipes onde atua. Como todos os jovens, de vez em quando, discorda de certas situações, mas logo entende que é para o bem dele, seja no âmbito profissional ou no pessoal”.

Já Luiz Almeida, técnico do Cresspom, última equipe em que Churrasco atuou no DF, fala da expectativa em volta do atleta, tão logo ele entrou no Cresspom. “Assim que ele chegou aqui, logo descobri que tinha um diamante. E somente com conversas com ele e dele com os colegas mais experientes, como o Munim e o Leandrinho, ele se tornou um excelente atleta de futsal de Brasília. Para mim, está entre os melhores”, relata o técnico.

Almeida conta que no primeiro mês que Carlos Eduardo chegou ao Cresspom, já deu pra avaliar onde o atleta poderia chegar. “No primeiro mês, falei para todos que o Churrasco seria o melhor jogador de futsal de Brasília e em tempo recorde. E assim aconteceu. Ele foi tão destacado que hoje está jogando lá fora”.

Além das características como jogador, Almeida destaca o comportamento do atleta extra-quadra: “O Churrasco tem uma característica muito peculiar: a humildade dele. Ele vem de família humilde, que tem suas necessidades e ele também. Ele é um excelente amigo, um excelente atleta. Tem um potencial muito grande”, enaltece o treinador.

Leandro Rocha Batista (Leandrinho): Amor ao futsal

Em agosto de 2019, Leandro Rocha Batista, mais conhecido por Leandrinho, completa 27 anos. O atleta começou no futsal aos nove anos de idade, na escolinha do Mackenzie, no Cruzeiro. Aos 21 teve a oportunidade de jogar profissionalmente, na equipe do Peixe/Mazza, onde ficou até 2012.

Em 2013, o ala direito se transferiu para o Green Team, mas foi em 2014 que teve sua primeira oportunidade de jogar fora do Distrito Federal, quando foi contratado pela equipe do Florianópolis Futsal. No ano seguinte, esteve no Balsas do Maranhão.

De volta ao DF, Leandrinho atuou pela AABB/UPis, em 2016 e 2017. No ano seguinte, foi para o Cresspom, último time do DF em que jogou antes de partir para o FK Vytus Futsal, equipe da Lituânia, no final de 2018, para jogar no FK Vytis Futsal.

Para o técnico Eugênio Lira, que acompanhou a equipe da AABB/Upis nesse período, Leandro só deixou coisas boas. “Foram dois anos de muitas conquistas para nossa equipe e o Leandrinho foi um dos principais responsáveis. Ele é um atleta muito dedicado nos treinamentos, líder dentro de quadra. Um bom exemplo para os mais novos, sempre pensando no trabalho em equipe, em jogar de forma coletiva”, comenta Eugênio.

Eugênio destaca também os títulos individuais do atleta. “Nesse tempo que esteve com a gente, foi eleito melhor atleta de Brasília no Campeonato Brasiliense, foi artilheiro. Conseguiu alguns títulos individuais, mas sempre visando o grupo. Então é muito importante a gente dá muito valor a esse tipo de atleta, como o Leandro”.

Adversidades

Fazendo o resumo do currículo de Leandrinho, parece que foi tudo muito rápido e fácil, mas o atleta viveu momentos de angústia e buscou nos familiares e amigos, além da fé em Deus, a força que necessitava para vencer os obstáculos.

“Primeiramente, agradeço a Deus e a minha família, pois sempre foram a minha força para superar os momentos de adversidades que essa vida de atleta nos proporciona. Meus pais, meus irmãos e, agora, minha filha, foram sem dúvida o diferencial pra eu chegar até aqui”, destaca Leandrinho.

O atleta faz questão de enaltecer algumas figuras que passaram em sua vida e que foram essenciais em sua caminhada. “Tive a sorte e o privilégio de trabalhar ainda jovem com três treinadores que entendem muito do jogo e me ensinaram tudo que eu precisava para jogar em qualquer lugar. São os professores Luciano Mistura, Sérgio Adriano e Antônio Carlos Barbosa (Banana)”.

E não deixa para trás os amigos que, segundo ele, estiveram presentes em todos os momentos. “Meus amigos sempre estiveram ao meu lado nos momentos bons e ruins. Todos vivemos o mesmo sonho quando garotos e isso me ajudou a me afastar de muitas coisas ruins da vida que poderiam ter interrompido tudo isso”, pontua o atleta.

Entre as dificuldades que enfrentou, Leandrinho destaca a lesão no joelho, em 2015, que quase o tirou das quadras. “Foi um ano muito difícil para mim, em que o desânimo foi um dos principais inimigos que tive que enfrentar”.

Porém, o craque não esquece a primeira conquista nacional, a qual atribui o start para trilhar o caminho de sucesso no futsal. “Em 2012, ganhamos o primeiro título nacional, a Taça Brasil de Clubes Sub-20 – Primeira Divisão, com a equipe do Peixe/Mazza. Creio que esse título foi um dos mais importantes da minha carreira, porque depois dessa conquista, meus olhos se abriram para querer buscar coisas maiores na minha carreira”, conta o atleta.

Gratidão

Com humildade e reconhecimento, faz questão de agradecer todos os professores que passaram em sua vida: “Tenho uma enorme gratidão por todos os professores que já tive na minha carreira. Sempre joguei, porque eles me deram a oportunidade”, como Flávio Bastos, Betinho e Wando, os três na época do Mackenzie, Tio Chico, Mistura, Sérgio Adriano, Banana, Virley, Eugênio e Almeida. Todos os treinadores que me ajudaram muito e sempre me deram muita moral”.

Quanto à formação profissional, Leandrinho também credita a alguns atletas com que teve a oportunidade de atuar e aprender “como Marlon, Cássio, Pulga, Rafa, Munin, Joe, Popeye. São alguns desses atletas consagrados em Brasília e no Brasil que me ajudaram muito na minha formação”.

E para os atletas que também vislumbram uma carreira de sucesso, o jogador deixa seu recado: “A mensagem que eu posso deixar a todos os atletas que compartilham do mesmo sonho que o meu é que persistam, treinem forte, se dediquem. Porque o esforço sempre traz grandes recompensas e o trabalho é o segredo para se conquistar qualquer objetivo na vida”, finaliza o craque.

Amizades

O pai, Carlinhos, jogava no Cresspom, quando ele tinha entre 6 e 7 anos e já demonstrava amor pelo futsal. O técnico do Cresspom, Luiz Almeida, lembra da infância do craque.  “Aos seis, sete anos, Leandrinho já era um fominha. Estávamos jogando e, quando havia pedido de tempo, ele entrava na quadra pra jogar”, conta Almeida.

Almeida lembra que ficou muito feliz quando ficou sabendo que o sonho de Leandrinho era jogar no Cresspom, mas antes de realizá-lo, o craque deu muito trabalho. “Primeiro, eu tive de aguentá-lo como adversário, ganhando tudo em cima da gente. Quando ele voltou a Brasília, jogou no projeto da AABB/Upis, onde deu muito trabalho para nós e nos tirou títulos e títulos. Mas, em 2018, ele veio jogar com a gente. Formamos uma equipe sensacional e ele era um dos líderes, junto a Munim, pois os dois tinham muita experiência fora do DF”, lembra Almeida.

No ano passado, segundo Almeida, o Cresspom tinha tudo para ser campeão de tudo, porém, a notícia da saída de Leandrinho e do Carlos Eduardo Soares da equipe acabou tirando o foco da equipe. “Estava tudo certo para o Cresspom ser campeão em tudo e logo veio a notícia da saída dele e do Churrasco. Isso abalou bastante a equipe e nós fomos vices nas competições que disputamos”.

Mesmo a distância, Almeida afirma que a amizade e o respeito continuam os mesmos. “O Leandrinho  é um excelente atleta e também uma excelente pessoa. Um amigo que tenho muito respeito. Ele sempre me respeitou. O pai dele e toda família são meus amigos. É espetacular em tudo”.

O desejo dos amigos é que tanto Leandrinho quanto Carlos Eduardo brilhem lá fora e que aproveitem ao máximo as oportunidades que tiverem, porém, quando voltarem, terão portas abertas nas equipes do DF. “Para mim, é um prazer muito grande estar falando desses dois atletas, que só me deram glórias no Cresspom. Tanto que os dois saíram, mas as portas estarão sempre abertas para eles. É um pessoal que nos orgulha muito ter compartilhado quase um ano jogando com a gente”, finaliza Almeida.

“Leandrinho vem colhendo frutos que ele mesmo plantou. Jogou liga, rodou o Brasil, voltou para Brasília e jogou com a gente. Foi campeão brasiliense, da Copa Rede Globo, campeão universitário regional e brasileiro. Conquistamos muitas coisas juntos. E com mérito conseguiu essa oportunidade e está hoje onde está. Então é um atleta que marcou positivamente na passagem dele pelo projeto. Esse lado de guerreiro, de querer crescer juntamente com a equipe e com os demais companheiros dele também”, endossa Eugênio Lira.

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