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Quebrando barreiras para o touchdown

Equipes de futebol americano encaram desafios para praticar a modalidade no DF

Augusto Almeida
e Ricardo Vaz

O futebol americano é um esporte que está constantemente se popularizando em terras brasileiras. Existem diversos campeonatos no País e, atualmente, são mais de 100 times no Brasil. No Distrito Federal, por exemplo, existem cinco: Leões de Judá, Brasília V8, Tubarões do Cerrado, Brasília Alligators e Brasília Templários.

As equipes, entretanto, sempre tiveram que enfrentar alguns obstáculos para praticar o esporte. Da falta de patrocinadores ao pouco incentivo do governo ao esporte, os impasses tornam o desafio de expandir o futebol americano muito difícil. Muitas vezes, são os próprios jogadores que pagam as viagens e os equipamentos de jogo.

Mais recentemente, um empecilho em particular quase pôs fim à prática do futebol americano em Brasília. As equipes do DF foram impedidas de realizarem partidas devido às péssimas condições dos campos. A explicação foi que os times estavam deteriorando o gramado dos estádios e, por isso, não poderiam dar continuidade aos jogos.

Os representantes do futebol da bola oval, por sua vez, acreditam que essa proibição aconteceu não apenas por esse motivo. Para eles, os donos dos times de futebol tradicional não queriam que as partidas de futebol americano e do futebol fossem disputadas nos mesmos locais.

O presidente e jogador do Leões de Judá, Adalberto Dadau, conta que esse tipo de impedimento é extremamente prejudicial para que os times consigam algum suporte financeiro. Ele conta que “os apoiadores e patrocinadores acham que o futebol americano é um esporte desorganizado”.

A instabilidade, contudo, é maior para as pessoas que praticam o esporte. Para Adalberto, isso cria um ambiente negativo dentro dos clubes, afetando a preparação de cada jogador, seja ela técnica, física ou psicológica. Além disso, toda a programação feita pelos times precisa ser reavaliada e, às vezes, alguns compromissos são cancelados.
“Dentro do campo é a ponta do iceberg. Temos uma estrutura já definida para o ano todo. Quando isso ocorre e o jogo é adiado, temos de mudar tudo. Os treinos, os tryouts, as ações externas que fazemos com a comunidade, as reuniões internas com a equipe inteira, enfim, bagunça tudo”, relata Adalberto.

A indignação dos times foi unânime, e eles exigiram uma explicação para a decisão. Mas em reunião com o vice-governador do DF, Renato Santana, no último dia 7 de outubro, os representantes dos times puderam respirar aliviados. Eles queriam saber do vice-governador se foi ele quem determinou aos times a não utilização dos estádios. Renato negou tal afirmação, disse ser contra a proibição, e liberou o Estádio do Serejão para receber os jogos do esporte.

A primeira partida após o descaso aconteceu no dia 10 de outubro, entre Leões de Judá e Brasília V8. Com vitória por 18 x 15 para os Leões. No final do confronto, mais notícias positivas. O administrador de Taguatinga, Ricardo Jacobina, garantiu que pretende construir na cidade duas arenas exclusivas para a prática do futebol americano.

Segundo Adalberto, esse será o primeiro passo para consolidar o esporte como uma realidade no DF. “Teremos uma evolução jamais vista no esporte aqui em Brasília, assim como foi com o basquete. Seremos referência”.

Sensação no país

No Brasil, dois canais têm os direitos autorais da NFL: a ESPN e o Esporte Interativo. Porém, existe uma diferença de audiência enorme entre as duas emissoras. Quem assiste aos jogos da liga prefere a ESPN. Na temporada passada, o canal teve média de público foi de 123 mil telespectadores por partida.

Essa febre do liga no Brasil já é de conhecimento dos próprios organizadores da NFL, tanto que já se especula a realização de um jogo das estrelas, o Pro Bowl, no país. O jornalista e comentarista da ESPN, Paulo Mancha, acredita que isso não vai demorar a acontecer. Para ele, essa partida acontecerá em 2017 ou em 2018.

A NFL já realiza jogos no exterior. A cada temporada, cinco jogos são disputados em Londres. Além do Brasil, os organizadores da liga estudam realizar partidas em outros países, como o México. Para Paulo, os dois países são fortes candidatos para receberem um jogo da NFL.

“Eles querem fazer no México, por que não fazer aqui? Sendo que os nossos estádios são melhores que os de lá. O México tem a vantagem de estar mais perto dos EUA e ter uma base de fãs mais tradicional do que a nossa. Mas nós temos uma infraestrutura melhor do que a do México. Então, eu não acho difícil de nos próximos quatro anos acontecer uma partida de temporada regular aqui no nosso país”, explica o jornalista.

Sobre o crescimento da prática do esporte no Brasil, Paulo acredita que poderia haver melhor estruturação das equipes e no planejamento dos campeonatos. O país conta, hoje, com dois campeonatos nacionais: o Torneio Touchdown e o Campeonato Brasileiro de Futebol Americano. De acordo com o jornalista, a presença de dois torneios é prejudicial ao esporte.

“Eu acho que deveria de alguma forma haver um campeão brasileiro, e não dois. E hoje a gente tem dois. Isso é ruim em termos de mídia, em termos de patrocínio, porque todas as pessoas que estão fora do esporte estão acostumadas a ver nos outros esportes um campeão. Se você tem dois, e não sabe qual é o mais legítimo, é muito complicado para convencer a mídia a cobrir, um patrocinador a patrocinar. Então, eu acho que poderia haver uma unificação entre essas ligas”, comenta Paulo.

Preço dos materiais esportivos pesam no bolso dos atletas

Futebol ameri

Quando se fala de futebol americano, principalmente no Brasil, não se pode esquecer o quão caro é para manter o esporte no país. Alguns jogadores possuem outros empregos para manter o hobbie.

Adalberto, também fundador dos Leões de Judá, além de jogar, trabalha como servidor público. Ele nos conta que gasta mais de três mil reais para importar os equipamentos direto dos Estados Unidos. Mesmo sem apoio e sem patrocínio, o time já ganhou vários prêmios importantes em Brasília, como, Campeão Candango 2015 e Campeão da Fase Regional Centro-Oeste pela Liga Nacional.

A pesquisa foi feita no dia 04 de novembro, com a cotação do dólar a R$ 3,79, nos sites riddel.com e mercadolivre.com.br. Os preços não incluem taxa de importação.
Adalberto reclama da burocratização para conseguir reconhecimento do governo. Segundo ele, leva mais de um ano para efetivar a parceria. O jogador, que tentou outras formas de parceria, obteve como respostas “vou pensar”, “depois te ligo”, “me procura na semana que vem”. Ele acredita que o esporte sofre preconceito do futebol nacional e da resistência que esses times têm em aceitar o futebol americano.

Diego Silva diz que já encontrou lojas nacionais, mas que prefere exportar, devido ao preço dos produtos serem mais baratos do que os vendidos no Brasil. Mesmo desembolsando caro, o jogador diz que ama o que faz, e que vale a pena cada centavo gasto. “Eu aprendi a respeitar mais. É sobre união. Eu posso dizer que tive melhoras no relacionamento com minha família graças à filosofia do esporte”, acrescentou.

Leões de Judá, primeiro time cristão do país, mantém um projeto social para jovens e crianças, para incentivar e ocupar o tempo dessas pessoas. O projeto até incentivou times de outros estados. Para se inscrever basta comparecer às 13h, todos os sábados no parque de Taguatinga, em Brasília.

O esporte atua sempre de forma positiva na vida de quem o pratica. Essas pessoas têm gastos exacerbados, mesmo assim, lutam pela valorização e reconhecimento da modalidade na Capital. Paixão é a palavra-chave.

“Dentro do campo é a ponta do iceberg. Temos uma estrutura já definida para o ano todo. Quando isso ocorre e o jogo é adiado, temos de mudar tudo”